Avenida Paulista, três da tarde, sábado de março, 2012.
A
este mendigo não consigo não dar esmola
- na bolsa dois reais ou vinte, retiro a nota de dois, menos crack,
penso - quando me pede olhando nos olhos dizendo to com muita fome. Alto, muito magro, cabelos nos ombros.
Vejo o grupo de rapazes
ruidosos do outro lado do vão da Bo Bardi - em frente ao espelho d’água que
separa o museu do outro prédio - ao mesmo tempo em que vejo o mendigo alto
(aquele mendigo) ultrapassar-me e dirigir-se a eles. A fome, me digo, era mesmo
aquela, não a do pão. E encolho os ombros.
Enquanto me dirijo para a
fila dos ingressos observo o grupo. A desordenada
alegria e o mendigo alto que gesticula, parece
explicar serem dois reais tudo o
que tem. Um rapaz – todos pardos, negros, uns dez – que negaceia, é muito
pouco. Se forma uma pequena torcida
entre os que apóiam o mendigo alto e os que concordam com aquele que parece
dizer ser pouco. Outro rapaz, sentado no chão, oferece uma garrafa de plástico
grande, com um líquido transparente ao Mendigo Alto. Ele bebe, agradece e continua a negociar com
o que, para mim, é o chefe do ponto. De repente vejo que há um acordo. O
Mendigo Alto se afasta do grupo e segue com o outro rapaz para um canto, no
final à direita do espelho d’água.
Imagino que cena verei. Mas não. O Mendigo
Alto retira a camisa, coloca-a sobre a bancada de cimento e deixa as havaianas
no chão. Retorna junto ao grupo assim, sem ter fumado. Atrapalho as pessoas na
fila, minha atenção absoluta à cena que transcorre do outro lado do vão não
chama a atenção de ninguém, só meu atraso incomoda.
O Mendigo Alto é recebido
pelo grupo com sons alegres. Alguns rapazes se colocam na frente dele, não o
vejo por segundos e em seguida escuto palmas, gritos e vejo água saltando no
ar. O Mendigo Alto brinca no espelho d’água. O grupo comemorava o fato de ele
ter vencido a negociação. Poderá banhar-se por dois reais. O sol na principal
Avenida do Capital Brasileiro era forte e o movimento intenso.
Desde o observatório
privilegiado da fila do Masp, vejo algo que talvez tantos tenham visto,
filmado, colocado no UTube, mas que, para mim, foi o primeiro banho a que
assisti. Embora a cena se oferecesse a todos, apenas meus olhos a viam.
O Mendigo Alto (o meu mendigo)
era banhado por dois rapazes, aquele com
quem negociara e o outro que o acompanhara até o canto. Eles o instruíam
criteriosamente nessa lavagem de um corpo. Ele alçava os braços magros (um corpo
assim como o de Cristo), eles o ensaboavam atentamente, esfregavam axilas,
costas, lavavam-lhe a cabeça com cuidado materno. O Mendigo Alto submergia-se
no espelho e retornava e cada vez era saudado pelos companheiros. Alegrias. O
gozo de todos. A fome era de água, de
corpo limpo. O Mendigo Alto recuperava seu status de pessoa ali, naquele banho,
água suja e cristalina.
Um dos dois “rapazes do
banho” (talvez sejam conhecidos) se aproxima com uma grande toalha e junto com
o outro (o que eu pensava ser o dono do ponto e quem sabe também o seja) envolvem
com elegância o mendigo lavado. Pude ver
o corpo magro nu rapidamente, sem manchas. (no Masp duas versões do Banho de
Suzana me aguardavam).
Um dos dois rapazes aproxima
a calça, as havaianas que são colocadas com calma, como se estivessem
impecáveis. E então o Mendigo Alto, vestido e banhado, se senta na borda do
espelho d’água e o ritual se completa. Um dos dois “banhadores” chega com algo
nas mãos, espalha nos cabelos do companheiro, a quem penteia a seguir com
cuidado e estilo. O outro traz-lhe a camisa suja de antes e esta camisa é
vestida com a ajuda dos dois companheiros.
O Mendigo Alto e seus Ajudantes se tornam personagens medievais - um
senhor e seus servos, no ato final do ritual do banho. Farto, pleno, seus
gestos são lentos, talvez nem fome sinta.
Tudo volta ao normal, o meu
mendigo alto conversa com o grupo, integra-se à balburdia dos jovens. Chega
minha vez, compro o ingresso, saio da fila para alívio dos que estão atrás. A
cultura está no museu, não na cena que todos poderiam ter observado, onde um
ethos tão nosso se expôs gratuitamente.
Nas duas representações do
Banho de Suzana as cenas são bem diversas. Em uma, apenas a bela em sua nudez,
as ajudantes e a natureza. Na outra, à
esquerda da tela, a inquietação de dois faunos presentes à cena, um deles com um
instrumento musical primitivo; à direita um cervo deitado, as patas para o alto
(morto?), os galhos da cabeça apoiados na grama e dois inesperados cãezinhos
subidos em cada lado do corpo (morto?)
do cervo. A nudez de Susana não me interessou, só o entorno. Quanto à nudez do
meu Mendigo, sim, branca e mínima; o entorno paulista como um grande negro vazio.
Termino a tarde vendo passar
pela Avenida uma limousine negra de onde saem, por duas janelas e por uma
abertura no teto, várias mocinhas vestidas de branco. Encantadas, sorridentes,
abanam para os da rua. Banhadas, maquiadas, vestidas Suzanas que só se deixam ver
assim, travestidas, que talvez nem se conheçam nuas, despojadas, que talvez não
saibam, nunca venham a saber o que exatamente significou desfilar em limousine
aos quinze anos pela Paulista.
A leitura é sempre diferente da audição. Agora, na tranquilidade do meu recanto, é que percebi todas as nuances do texto. É uma crônica quase-conto. Até podes trabalhá-lo neste sentido, caso tenhas vontade.
ResponderExcluirMuito bom.
Espetacular
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